Brno, 2003

Alheado em longos regressos a Paris e a Brno, alheado talvez já demasiado tempo do espaço luso e do ciber-espaço, só neste Janeiro decidi finalmente regressar aos pequenos "sítios" que nesses espaços melhor me definem.

O tempo ainda não foi suficiente para abrir as malas e as memórias. Para já fica aqui apenas o registo do prazer que senti em voltar a calcorrear a arte do efémero, o congelar do passado: a fotografia, numa redescoberta felizmente imposta pela reinvenção de uma instalação no Outono de Brno onde texto/imagem, imagem/texto e público acabaram por se fecundar em potenciação de significandos totalmente inesperada.

Vórtice/Vertigem 4 (2003)

Tive mesmo a agradável surpresa de alguém com o prestígio de um Jindrich Skocdopole (homem cada vez mais reservado e avesso a comentar qualquer forma de arte) se ter dignado ler/iluminar o meu espartano trabalho numa generosa crónica. Apenas pela notável límpidez exegética de Skocdopole, não resisto a reproduzir aqui um fragmento (quaisquer deficiências do texto são resultado da minha medíocre tradução):

«O título (provisório, como qualquer título devesse ser) é `Vórtice/Vertigem 4'

Na fronteira entre a segurança do Plano, da Luz, e o precipício para o Abismo, a Escuridão, o autor captou um instante do que tanto pode ser uma curta pausa dubitativa de reflexão (entre o salto e o não salto, numa visão antropomorfizante) como ser uma postura eterna de um guardião que entre dois mundos nos preserva do Caos. Mas até esta ambiguidade semiótica é ela própria uma rotação, para o quadro da dimensão temporal, do que se nos dá a ver com a imagem se reduzida à condição puramente pictórica: um vórtice, um turbilhão, mas um turbilhão contido, na dúvida (de quem?) entre dois Possíveis. Agora/Futuro, Estar/Devir, Potência/Acto, Ser/Movimento, Matéria/Energia: levantada só pequena ponta do desfloramento exegético desta peça, ela afigura-se já como uma magistral ilustração de alguns das reflexões mais profundas sobre espaço e tempo (e vida) que tanto intrigam e movem Yarra desde que as descobriu no Sur la Genèse, de Michon. Olhe-se além da impressão superficial de alguma influência (re)relativística. Note-se a simplicidade de meios com que A.Y. conseguiu transmitir a solução de continuidade, a ferida, o rasgão, a que mesmo a essência do Vórtice sucumbe perante o abismo. Sucumbe ou, pelo contrário (ou ao mesmo tempo?), vence sobre a Vertigem?

Vórtice oscilando sem oscilar entre o Telúrico e o Infinito/Indefinido. Vórtice/copo que sacrifica a sua natureza de vaso a um propósito mais nobre do que o de Conter, rasgando-se para um Comunicar/Comunicare. E, a coroá-lo, a perfeição platónica, acabada, do que antes era um Círculo, a evoluir para a imperfeição sobrevivente da Espiral, metáfora óbvia do código da vida, do plano da Célula. Ou de como a resposta para a tensão na vertigem do Infinitamente Grande está, afinal, na mensagem transmitida pela escada em caracol do Infinitamente Pequeno.

Afinal, a Vida como habitante último e resposta à Fronteira. Sublime.»