Sur la Genèse des Métaphores
d'Espace-Temps:
Une Réflexion au delà de l'Urgence,
Editions La Pierre et le Miroir, Paris, 1982
Retomando - em termos que, de resto, nunca havia abandonado - o fio de Ariadne em que se tem constituído boa parte da sua carreira - melhor dito, da sua vivência - Jean Michon volta nesta obra, uma vez mais, ao seu local favorito: a mimese interpretativa, o lulismo diacrónico, a empatia vacilante. Possuidor de um instrumental exegético que dispensa a tergiversação do entendimento, o autor avança, em arrancadas súbitas e paragens ainda mais densas, pela vida, os seus vaticínios, a sua ubiquidade. Um livro que exige e se exige a si próprio, atreito a cruzamentos e leituras planares, estanque. Uma obra que - se as houvesse - seria uma referência no Parnaso da noese.
Em breve voltarei, neste mesmo locus, a uma observação mais detalhada (que não poderá deixar de ser, concomitantemente, introspectiva/extrospectiva) sobre este tour de force paradigmático. Limitemo-nos por agora - a título de micro-exemplo - a vislumbrar como a transmissão de uma mensagem (em qualquer plano) pode operar/ser operada como vértice da compreensão do espaço, do tempo e do espaço-tempo, desmultiplicados em infinitas dimensões e percepções. E como pode ser eficaz nessa dialéctica a extrapolação de "meros" conceitos da esfera linguística, antes tão desprezada por aproximações patologicamente ortodoxas à physis. Propõe Michon:
«On peut reprocher à Kierkegaard son scientisme déductif. Mais il ne faut pas oublier pour autant qu'il conteste le maximalisme universel de la société. C'est ainsi qu'il caractérise la raison minimaliste par son aristotélisme existentiel et on ne saurait, par ce biais, assimiler, comme le fait Rousseau, l'extratemporanéité idéationnelle à une extratemporanéité phénoménologique. Et il ne faut pas oublier qu'il examine le distributionnalisme primitif de l'individu alors même qu'il désire l'opposer à son cadre social et politique.
La géométrie illustre, finalement, un distributionnalisme de la pensée individuelle. C'est dans cette même optique qu'il spécifie l'objectivité originelle de la société.»
Intuição convergente, mesmo que não o aparente ao primeiro relance (ou às exegeses mais superficiais e trespassadas de pré-conceitos - nada mais, por isso, que pré-exegeses), é a de Pedro Eiras no seu recente ensaio "O Texto Sobrevivente - lendo três lugares d'O Livro das Comunidades de Maria Gabriela Llansol", quiçá prolegómeno de uma reflexão mais profunda sobre causalidade versus livre arbítrio:
«A "mensagem" também cria o "desejo". Ela não corresponde, nem reflecte, nem exprime uma falta anterior, antes cria no passado de si própria um lugar aberto para o desejo vindouro. O tempo da mensagem é, por isso, um passado futuro. Freud descreveu a infância como uma invenção (lembrem-se, por exemplo, as aulas de 1916): muito do que lembramos (ou tudo!) é projecção realizada no presente sobre um passado que nunca houve. O presente recalca, imagina, recria, deturpa; o desejo presente inventa um tempo e uma história. Lévinas (1961) acrescentou: o desejo não implica o completar de uma lacuna dada, implica, pelo contrário, acréscimo de desejo. A "mensagem" provoca novas procura e pergunta. Antes da "mensagem" do texto, não existe desejo constituído, nem leitor, autor, tempo: tudo começa no texto, mesmo aquilo que o texto afirma que já havia antes dele. Disse-o Derrida em De la Grammatologie: "Il n'y a pas de hors-texte" (1967: 227).
[...]
A linearidade da leitura treme aqui, como nas gravuras de um Escher. A mão escreve a mão que escreve a mão que escreve a mão que escreve a mão que escreve a mão, e a frase é tão desprovida de início como de fim. Mas no interior deste círculo existe também um sonho que revisita a realidade ("sonhava que me encontrava onde, de facto, me encontrava"), e um espelho que revisita um rosto ("o espelho, que escolhi oval") e revisita um corpo ("masturbar-me diante daquele corpo" - qual?). O princípio de realidade coincide com o princípio de prazer (não há realidade fora do desejo). Isto é, o real é instaurado pelo desejo, a vontade de regressar concretiza-se em concreto regresso.»